Mulheres na educação: caminhos para a igualdade

Mulheres na educação: caminhos para a igualdade
  • 09/03/2021
  • Cultura / Música / Teatro

Mulheres na educação: caminhos para a igualdade

Fernando José Lopes

 

Neste dia Internacional da Mulher - para além da luta operária feminina que tem como marco histórico um incêndio, em Nova York, nos Estados Unidos, que deixou 146 vítimas, sendo 125 delas mulheres operárias 1 - trazemos aqui alguns nomes de mulheres que fizeram história no mundo e na nossa pequena Japaraíba na luta por igualdade e pelo direito à uma educação sem distinção de gênero ou classe social.

Igualdade... talvez tenha sido essa a palavra que mudou o mundo, incorporada ao vocabulário de mulheres que não se curvaram a um mundo de direitos restrito e dominado pelo sexo masculino. Na França revolucionária de 1789, Olympe de Gouges foi o nome da mulher que começou a questionar por que a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” não se aplicava às mulheres. Além de ser contra a escravidão de pessoas negras, de defender o direito ao voto feminino e as mesmas oportunidades de trabalho para todos os gêneros, Olympe de Gouges “sustentava ainda que todas as mulheres deveriam receber educação de qualidade de modo a serem boas cidadãs” 2. Dessa forma, Olympe escreveu sua “Declaração dos direitos da mulher e da cidadã” e apresentou a rainha Maria Antonieta. Foi o bastante para que a escritora fosse sentenciada à morte na guilhotina em 1793, acusada de trair os ideais revolucionários que se diziam universais. Nessa mesma França, as ideias de um filósofo famoso - chamado Jean Jaques Rousseau - consideravam que “por ser inferior ao homem em capacidade intelectual, a mulher deveria receber instrução superficial, com maior ênfase na educação moral e não no preparo para pensar” 3, ideias que continuaram a prevalecer por um bom tempo.

            No Brasil escravocrata, por volta de 1832, uma professora chamada Nísia Floresta realizava traduções de escritoras francesas. Nísia Floresta, ao longo de sua vida, também publicou muitos textos em jornais, defendendo a educação como um instrumento de emancipação das mulheres não escravas no Brasil de seu tempo 4. Enquanto isso, no Maranhão, Maria Firmina dos Reis - afrodescendente - dedicava-se a vida a ler, escrever, pesquisar e ensinar. Numa época em que homens brancos dominavam os espaços educacionais - e que o acesso à educação era permitido em lei apenas aos ex-escravas e ex-escravos ou nascidos livres - Firmina dos Reis formou-se professora e tornou-se a primeira mulher a passar num concurso público, em 1847, no Maranhão. Em seu livro Úrsula, de 1859 - seguramente o primeiro romance publicado por uma mulher negra em toda a América Latina - Maria Firmina utilizou a escrita como “um instrumento de crítica à escravidão por meio da humanização de personagens escravizados” 5. Já em 1880, Firmina dos Reis fundou a primeira escola mista e gratuita do Maranhão, em que meninos e meninas estudavam juntos.

Em nossa Japaraíba, em 1934, num período em que a educação ainda era um privilégio de poucos senhores mais abastados com condições de contratar um professor ou professora particular para seus filhas e filhos, Dona Nicaulis Ribeiro de Carvalho auxiliou seu marido Manoel Pinto de Carvalho (Sr. Bilico) na idealização e criação da primeira escola municipal para atender todos os alunos sem distinção. Assim, em 1936, Dona Nicaulis foi a primeira a lecionar na Escola Rural Mista de São Simão para uma turma de 124 alunos com idades variando de 7 a 15 anos. Após ela, entre 1937 e 1945, veio a professora Dona Maria Vitoi (Dona Lé) 6.

Já em 1954, destacamos a atuação da professora D. Noêmia Teixeira Rodrigues que, transferida para a Escola Rural Mista de São Simão, deparou-se com uma escola carente de recursos. D. Noêmia pôs-se então a promover bailes e barracas, com a ajuda da comunidade, para a melhoria da escola. “Trabalhou em Japaraíba até 1970, onde foi professora, coordenadora e corresponsável pela criação da Caixa Escolar do Grupo Padre Pedro Lamberti e da Biblioteca Municipal. Além das dificuldades da época, como falta de transportes e falta de recursos financeiros, D. Noêmia vivia às turras com Padre Tavares. Certa vez, em que era ocasião de matrículas para o ano letivo, o padre mandou trocar as fechaduras do Grupo Escolar Padre Pedro Lamberti. D. Lilia instruiu D. Noêmia a fazer as matrículas em casa mesmo. Feito isso, a professora seguiu corajosa até a Casa Paroquial e exigiu as chaves da escola. O Padre Tavares, meio sem jeito, entregou-as em suas mãos” 7.

Inicialmente, fizeram parte do Grupo Escolar Padre Pedro Lamberti as professoras D. Clarinda Rezende de Melo, D. Lenice Azevedo, D. Vera Lúcia dos Santos, Dona Maria dos Santos Lima (D. Lilia), D. Ana Rodrigues Dias, D. Aparecida Alves Ferreira e muitos outros nomes importantes de mulheres que contribuíram para a jornada do conhecimento em Japaraíba. Mulheres corajosas e determinadas em suas lutas por mudar e melhorar o mundo através da educação. Trazemos alguns desses nomes para homenagear todas as mulheres de nossa cidade, nessa data de reflexão da luta feminina por justiça e igualdade, que ainda se faz necessária. Que seus nomes e suas histórias possam ultrapassar gerações e inspirar as lutas de outras mulheres.

 

Notas/Referências:

 

  1. Disponível em: https://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,porque-8-de-marco-e-o-dia-internacional-da-mulher,70003222664,0.htm . Acesso em: 8 de março de 2021.
  2. MARQUES, Teresa Cristina de Novaes. O voto feminino no Brasil. Edições Câmara. 2ªedição: Brasília, 2019, p. 15.
  3. Idem, p. 18.
  4. Idem, p. 21.
  5. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/centenario-maria-firmina-dos-reis/ . Acesso em: 8 de março de 2021.
  6. MACIEL, Maria Regina Alves. História de Japaraíba. Lagoa da Prata. Gráfica Moderna, 2006, p.157.
  7. Idem, p. 203-204.
  8. Na arte temos, da esquerda para direita, as fotografias de Dona Maria Vitoi, a Dona Lé, primeira professora a atuar em São Simão; Dona Noêmia Teixeira Rodrigues, corresponsável pela criação do Caixa Escolar do Grupo Padre Pedro Lamberti e Dona Ana Rodrigues Dias que fez parte da primeira turma de professoras do Grupo Padre Pedro Lamberti